Ponta Negra: praia ou feira livre?

Tribuna do Norte - 14 de Janeiro de 2012 
Ao longo de 2,5 quilômetros do calçadão da praia de Ponta Negra, o cartão postal de Natal, se vê de tudo. Ambulantes vendem de comida e bebidas, a roupas, biquines, artesanatos, CDs e DVDs piratas até óculos e protetor solar. De domínio da União com cessão de área ao Município, o espaço  na areia é tomado por guarda-sóis abertos, cadeiras e mesas, além de carrinhos de ambulantes. A ordenação e fiscalização do espaço, negligenciado pela Prefeitura do Natal, voltará a ser discutido na próxima terça-feira, 17, entre o Ministério Público e as Secretarias Municipais de Serviço Urbano (Semsur) e de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb).
Adriano AbreuSem qualquer fiscalização ou ordenamento, ambulantes vendem de tudo um pouco nas areias da praiaSem qualquer fiscalização ou ordenamento, ambulantes vendem de tudo um pouco nas areias da praia

"Iremos cobrar as ações conjuntas para o Plano de Fiscalização estabelecido em Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), firmado com o Município, em 2005", afirma a promotora de justiça de Defesa do Meio Ambiente Gilka da Mata. 

O cumprimento do TAC visa  ordenar o uso e ocupação da orla de Ponta Negra, coibir o uso indevido do passeio público; impedir a desordenada colocação de mesa e cadeiras em área de praia ou no calçadão e o uso privativo do comércio ambulante em vagas de estacionamento; além de realizar operações conjuntas e informar ao MPE.

Basta circular pela praia mais famosa da cidade para constatar a formação de um comércio popular que se move à céu aberto. A ambulante Sabrina Silva armou a banca de roupas de praia há três meses, no calçadão, onde uma pequena feirinha começa a funcionar. Mesmo sem autorização, ela conta que o trabalho vale a pena. "Não vemos fiscalização". 

A turista paulista Glaucia Queseck, 40 anos, se assustou com o pouco espaço deixado pelos sombreiros. "Ambulantes incomodam menos do que essa ocupação de cadeiras e guarda-sóis. O turista é quase obrigado a alugar porque não tem espaço na areia pra estender a canga", disse. 

A brasiliense Andrea Ribeiro considera um desafio nacional combater os trabalhadores informais. Para ela, apesar da concorrência desleal com outros comerciantes, acabar com atividade implica numa questão social. "Vão tirar o pão da boca deles? Essa é a época que eles ganham melhor", disse.

Segundo o garçom Pedro de Araújo cada quiosque e alguns comerciantes avulsos possuem autorização da Semsur para colocar até 15 guarda-sol e 30 cadeiras na praia. Não podem ultrapassar esse limite, segundo ele. "É muita gente no verão, mas a gente cumpre direitinho", disse.

Desde final de 2008,  o MPE busca na Justiça a efetivação do Termo. Após recorrer de decisão do Juiz Ibanez Monteiro da Silva, em outubro de 2010, o  Tribunal de Justiça constatou o descumprimento do TAC. No acórdão assinado pelo Desembargador Amílcar Maia e a Juíza convocada Suely Maria Fernandes Silveira, publicado em 1º de dezembro passado, consta que "os documentos citados são relatórios de fiscalizações isoladas realizadas Semob e pela Secretaria Municipal de Saúde, através da Vigilância Sanitária, sem estabelecimento de qualquer plano de ação conjunta entre as secretarias envolvidas. A Semsur negou-se a dar cumprimento ao TAC sob a justificativa de falta de legislação municipal regulando a gestão dos bens públicos".

Na tarde de ontem, o diretor de  concessões e Operações da Semsur Antoniel Emiliano Carreiro, disse que embora seja necessário uma lei, as ações serão realizadas a partir de fevereiro, com base em relatório fotográfico que verificou irregularidades em 2011. A semsur tem cadastrado cerca de 150 ambulantes, mas estima um aumento de 50%.  

O assunto foi noticiado pela TRIBUNA DO NORTE, em 31 de dezembro. À época, o secretário municipal adjunto da Semurb, Sueldo Medeiros disse que, após as festas de Santos Reis, a secretaria iria traçar o planejamento de ação a ser realizada em conjunto com a Delegacia de Patrimônio da União e a Procuradoria da República. 

Maré alta ameaça calçadão 

Esta época do ano, a força das marés que açoitam calçadões ao longo de toda orla ficam mais intensas. Hoje a tabua de marés, terá incidência de alta entre ás 7h53 e 20h09, com amplitude de 2.2 e baixa a partir das 1h24 e 13h39. A explosão de ondas quebrando contra os paredões se agravam, explica o chefe do Departamento de Meteorologia da Emparn Gilmar Bristot,  devido a maior densidade da água, que aumenta com o calor e eleva a altura do nível, bem como ao fenômeno lunar de lua cheia ou nova, quando o satélite, o sol e aterra se alinham sobre um mesmo eixo. "De janeiro a fevereiro ocorrem as marés mais altas e mais baixas do ano", disse. Nos últimos três dias ocorreu ainda uma composição meteorológica, com ventos mais fortes entre às 11h e 15h, influenciando a força das marés.  "Como há um ataque frontal e mais intenso aos muros de contenção, é comum que nesta época ocorra também desabamentos", alerta Bristot. No último ano, parte do calçadão da orla das praias de Areia Preta e do meio cederam a força das marés.

DEU NO UOL: Obra da Copa pode poluir ponto turístico e levar esgoto para praias de Natal

Rio Potengi, em Natal (RN), pode receber esgoto clandestino por túnel de drenagem

Rio Potengi, em Natal (RN), pode receber esgoto clandestino por túnel de drenagem

11/01/2012 - 19h50
Vinicius Konchinski
Do UOL, em São Paulo

A Copa do Mundo está sendo usada pela Prefeitura de Natal como justificativa para uma obra que pode poluir um dos cartões postais da cidade. Alegando a proximidade do Mundial, a administração municipal quer construir, sem os estudos ambientais previstos em lei, um túnel de drenagem que pode despejar água contaminada direto no rio Potengi.

O túnel de cerca de 5 km de comprimento vai servir para escoar a água da chuva de bairros da zonas Sul e Oeste de Natal, incluindo a área onde está sendo construída a Arena das Dunas, que receberá jogos da Copa de 2014. Por isso, a construção do sistema de drenagem é considerada pela Prefeitura de Natal como de extrema importância e urgente. Tão urgente que o município resolveu utilizar um RAS (Relatório Ambiental Simplificado) para avaliar mais rapidamente possíveis impactos ao meio ambiente que podem ser causados pelo túnel.

Acontece que a legislação federal e do estado do Rio Grande do Norte exigem que obras de drenagem sejam avaliadas por estudos mais completos de impactos ambientais. Nesses casos, os projetos das obras precisam conter um EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e um Rima (Relatório de Impacto Ambiental), os quais a obra de drenagem da Prefeitura de Natal não tem.

A falta dos estudos mais consistentes foi detectada pelo MP-RN (Ministério Púbico do Rio Grande do Norte) no final do ano passado. Um grupo de promotores encarregados de acompanhar a preparação de Natal para Copa de 2014 abriu em novembro uma investigação para apurar por que a prefeitura não tinha os estudos necessários para a obra e por que o Idema (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte) não os exigiu.

Essa investigação resultou em uma ação civil pública aberta pelo MP-RN em dezembro. Nela, os promotores do estado processam a administração municipal e o órgão ambiental do estado. Além disso, pedem a cassação imediata dos alvarás que autorizam a construção do túnel de drenagem.

O promotor Márcio Luiz Diógenes é um dos membros do MP-RN que assina a ação. Ele é o responsável pela investigação sobre a obra de drenagem e vê uma "pressa desnecessária" da prefeitura para construir um túnel que pode causar muitos danos à cidade.

"Nenhum prazo curto ou grande evento justifica o descumprimento das leis", disse Diógenes, em entrevista ao UOL Esporte. "Parece que a prefeitura quer usar a Copa do Mundo como desculpa para tocar uma obra de risco sem os estudos necessários sobre os impactos ambientais."

De acordo com o promotor, a obra de drenagem pode ser muito prejudicial ao Rio Potengi. O túnel vai interligar lagoas formadas por água da chuva fazendo com que ela escoe para o rio. Essas lagoas, porém, estão frequentemente contaminadas por esgoto despejado clandestinamente pela população. Caso o túnel seja construído, esse esgoto tende a acabar no Rio Potengi e, depois, nas praias de Natal.

"Há uma série de questões que só podem ser resolvidas com estudos mais consistentes", complementou o Diógenes. "O esgoto nas lagoas pode acabar nas praias e ainda causar problemas para plantas e animais do Rio Potengi."

O Potengi é o principal do Rio Grande do Norte. Os primeiros portugueses que chegaram ao que hoje é a cidade de Natal o chamaram de Rio Grande e isso, mais tarde, foi usado inclusive para batizar o estado potigar. Passeios de barco no Potengi durante o pôr do sol são algumas das atrações turísticas do estado. O manguezal na foz do Potengi também é área de preservação ambiental incluída no Parque Estadual dos Mangues, criado em 2006.

O secretário de Obras e Infraestrutura de Natal, Sérgio Pinheiro, disse que a Prefeitura de Natal está ciente dos riscos ambientais da obra e realizou todos os estudos recomendados pelo Idema para dar andamento ao projeto. "A prefeitura seguiu o que mandou o Idema", disse o secretário. "A obra é considerada de baixo impacto e por isso não foi necessário o EIA e Rima."

Pinheiro afirmou também que espera que a Justiça entenda a urgência da obra para que ela possa seguir com seu o cronograma. "Ainda não sabemos exatamente do que trata a ação, mas esperamos bom senso do Judiciário. A prefeitura tem uma preocupação porque já assumiu compromissos."

Segundo o secretário, a licitação para a construção do túnel está em fase final de preparação. Ela deve ser aberta na semana que vem e a obra deve começar em 90 dias se a Justiça não embargá-la. A Caixa Econômica Federal deve financiá-la, já que a obra foi incluída no PAC 2.

Já o Idema, que também é réu na ação do MP-RN, disse que todos os estudos mais completos sobre o túnel já foram realizados. A obra, informou o órgão, faz parte de um plano de drenagem para toda a cidade de Natal. Segundo o Idema, esse plano foi amplamente estudado e seus impactos avaliados. Para o Idema, realizar uma nova análise específica sobre o túnel seria redundante.

A Justiça do Rio Grande do Norte informou que o Idema e a Prefeitura foram notificados nesta terça-feira sobre a ação do MP-RN. Foram também intimados a prestar esclarecimentos sobre os questionamentos dos promotores. Os depoimentos devem ser tomados até sexta-feira. Até lá, a Justiça não deve decidir sobre a cassação das licenças da obra e o projeto do túnel segue em andamento.