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Ponta Negra: A Vila como ela é



A história e o universo sociocultural da Vila de Ponta Negra serão mostrados para todo o Brasil no radiocumentário “Vozes da Vila”.

Dona Helena é uma das rendeiras da comunidade.

O Brasil vai conhecer a Vila de Ponta Negra. A Vila como ela é, mostrada pela própria comunidade. O radiodocumentário “Vozes da Vila”, único projeto do Rio Grande do Norte selecionado no I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos - Prêmio Roquete-Pinto, desvenda, em doze episódios, o universo sociocultural do lugar e resgata os pormenores de sua história, desde quando a comunidade era isolada de Natal e auto-suficiente até os dias de hoje.

Em fase de finalização, com previsão de ser concluído até o final de outubro e enviado à Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub) para veiculação em suas rádios associadas provavelmente ainda neste ano, o documentário é um retrato, ou melhor, um registro sonoro fiel da Vila.


O jornalista Yuno Silva e as estudantes de Radialismo da UFRN Joanisa Prates e Ana Ferreira estão à frente da equipe que trabalha no documentário. Eles entrevistaram mais de 50 moradores da Vila de Ponta Negra. Gente como dona Guiomar, de 90 anos, uma das primeiras professoras da comunidade, e Gilberto, pescador de 51 anos que todos lá conhecem como “Seu Boneca”.

Dona Guiomar, uma das primeiras professoras da Vila, ao lado do neto Michel

Além da pesca e educação, o documentário fala, entre outros assuntos, de gastronomia, religião, lendas, festejos, turismo, urbanismo, meio ambiente e, claro, de cultura popular, tema ao qual são dedicados dois episódios, o que se justifica pelo fato de a Vila de Ponta Negra ser um celeiro de cultura e tradições, representadas por grupos de danças tradicionais, pelo trabalho manual (renda de bilro, principalmente) e pesca artesanal.

Mas todas essas tradições, segundo os artistas populares, rendeiras e pescadores, estão ameaçadas. “Seu Boneca” deu um depoimento dizendo que daqui a 15 anos a pescaria na Vila vai se acabar. O pescador fala que as gerações mais novas não se interessam pela pesca. O mesmo ocorre com a renda e com as danças.

“Atualmente, Ponta Negra concentra os principais investimentos imobiliários e turísticos de Natal e, dentro desse contexto, a cultura e a essência da Vila estão caindo no esquecimento dos natalense e dos próprios moradores do bairro. A maioria dos turistas não entra em contato com esse rico manancial de tradições, manifestações da cultura popular e atividades artesanais, e as novas gerações estão perdendo o interesse em perpetuar essas tradições devido à constante desvalorização de sua identidade cultural”, diz Yuno Silva.

De acordo com os relatos, a Vila de Ponta Negra era um conglomerado agrícola e familiar isolado de Natal e auto-suficiente até o início da década de 60, quando o governo vigente se apossou das terras e destruiu as plantações. A Vila assistiu de camarote sua primeira grande transformação com a mudança no meio de subsistência.

Equipe do radiodocumentário entrevista Antônio Leal, antigo morador da Vila

“Existem relatos atestando que moradores chegaram a adoecer, e mesmo a morrer, pelo desgosto de ver sua terra ameaçada e destruída”, diz Yuno, que identificou nas entrevistas feitas para o radiocumentário um povo cheio de nostalgia e preocupado com os tempos de hoje, em que a Vila, desassistida pelo poder público, sucumbe aos poucos à violência associada ao consumo e venda de crack - problema contra o qual os movimentos sociais vêm lutando sozinhos.

Seleção e veiculação

O projeto “Vozes da Vila” foi inscrito pela Universitária FM/Funpec no I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos - Prêmio Roquette-Pinto. Realizado pela Arpub (Associação das Rádios Públicas do Brasil), com patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura, o Prêmio selecionou 40 propostas de todo o Brasil, sendo 13 radiodocumentários, dez radiodramaturgias, dez programas infanto-juvenis e sete programas do gênero radioarte. Do Rio Grande do Norte, o “Vozes da Vila” foi o único contemplado. Os 12 episódios do radiodocumentário potiguar, de 30 minutos cada, serão veiculados para todo o Brasil por meio das rádios associadas à Arpub.

EPISÓDIOS

Era uma voz na Vila... – introdução e apresentação, histórico, dados e estatísticas, contextualização e atualidades;

Homens ao mar – pescadores, surfistas, início da relação comunidade x mar, atividade comercial e fatos históricos;

Sabores da Vila – os quitutes que resistiram ao tempo, os primórdios da comunidade em torno das casas de farinha, especialidades culinárias, o contexto atual com a altíssima gastronomia mundial;

Cultura popular (parte 1) – origem, presente e futuro das manifestações culturais, a resistência dos grupos e a nova geração;

Cultura Popular (parte 2) – detalhes sobre cada um dos grupos: Bambelô, Congos de Calçola, Boi de Reis, Coco de Roda, Pastoril e Lapinha;

Lendas e histórias – o lobisomem, as lendas da comunidade contadas pelos mestres da cultura popular, histórias de pescador e personagens da Vila;

Arquitetura e meio ambiente – o potencial turístico, a beleza natural exuberante, a especulação imobiliária, degradação ambiental, poluição do mar, falta de saneamento, crescimento urbano desordenado e abismo social;

Artes da Vila – as rendeiras, atividades artísticas e culturais desenvolvidas no bairro: circo, teatro, dança, música, ponto de cultura, cineclube;

Vila de todos os credos – a hospedagem do Papa João Paulo II, igrejas católicas, evangélicas, terreiros de candomblé, centros espíritas e reuniões budistas;

Turismo e paisagem natural – a ocupação irregular do solo, a verticalização radical do bairro, os zoneamentos de áreas de interesses específicos, a complexidade urbana, a falta de espaços públicos de lazer e o ecossistema social;

Movimentos sociais – projetos de amparo social, presença de instituições públicas e/ou privadas no bairro, atuação de ONGs, movimentos populares, voluntários, necessidades, novas iniciativas e projetos de segurança pública;

Educação – televisão pública na praça, fofoca comunitária, as primeiras escolas, os primeiros professores, o Patronato (internato católico), interação da Vila com Natal antes das construções de estradas.

FICHA TÉCNICA

Direção, pesquisa e produção - Joanisa Prates
Pesquisa roteiro e produção - Ana Ferreira e Yuno Silva
Trilha sonora - Carlos Zens
Locução - Rodrigo Bico
Cordelista/poeta - Emmanoel Iohanan
Editor de áudio/sonoplastia - Eduardo Pandolphi
Técnico captação de áudio/sonoplastia - Rafael Telles


* Fonte: Nominuto.com - 17/out/2010, por Itaércio Porpino
Fotos: Yuno Silva e Joanisa Prates 

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