ESPN [vídeo 3] Moradores de Natal revelam ainda não saber destino após desapropriações

Em Natal, uma das sedes da Copa do Mundo de 2014 no Brasil, centenas de desapropriações ameaçam a vida de moradores e comerciantes. O projeto inicial apresentado pelo Comitê Organizador Local (COL) previa que 1.200 famílias deveriam deixar suas casas, mas o número foi reduzido após mobilização popular. Hoje, estão previstas 429 desapropriações residenciais, 119 comercias e 41 em terrenos particulares e públicos. Os moradores, porém, ainda não sabem para onde irão.


O comerciante Abimael Lopes Pereira, que mora em cima de seu comércio, disse que foi proposto a ele uma casa do projeto Minha Casa, Minha Vida. "Só que a minha casa e a minha vida são isso aqui", disse, apontando para onde vive. Ele ainda revelou que o local onde mora e trabalha deve valer cerca de R$ 900 mil, mas que deve receber pouco mais de R$ 200 mil. "Dá vontade de pegar uma corda, colocar no pescoço e se enforcar", esbravejou.

No Complexo Viário da Urbana, todas as casas serão derrubadas. Cícero, funcionário aposentado da prefeitura, revelou que jamais imaginou ter de deixar seu lar após mais de 50 anos. "Eu gosto de morar aqui, foi onde criei meus filhos e vivo aqui. Não sei onde vou morar. Eu não sei o que vai acontecer não, vou sair na marra".
Moradores revelam não saberem destino após desapropriações em Natal; veja 2ª reportagem da série especial!
Eloisa Arruda, estudante líder da associação potiguar dos atingidos pelas obras da copa, luta para tentar amenizar os problemas, mas conta que a comunicação com a prefeitura é falha. "A Secretaria de Meio Ambiente e Urbanismo enviou um ofício, que diz que podemos entrar em contato. Mas o telefone não funciona quase nunca, só consegui falar uma vez, e ai ficam passando a ligação. Não vejo nenhuma disponibilidade por parte deles em negociar".

"A gente mora aqui há 20 anos, eu tenho vizinhos que moram aqui há 30 anos e que não querem sair, porque a gente não sabe com vai ser a vida em outro lugar", desabafou a jovem.

ESPN [vídeo 2] Em Natal, obras de mobilidade atingem reservas naturais e geram desperdícios e desemprego

Obras para melhorar a mobilidade urbana são indispensáveis para a realização da Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Porém, em Natal, uma das sedes do Mundial, os projetos desrespeitam os direitos da população e até mesmo da natureza. É o que revela o Comitê Popular organizado na cidade.

"Um projeto de grandes obras exige estudos de alternativas e aqui não houve isso. Foi publicada uma única proposta como projeto definitivo e com uma única solução", explicou Dulce Bentes, arquiteta integrante do comitê.

O grupo luta para não se curvar aos interesses imobiliários, faz movimentos populares e tenta pressionar o governo, mas os resultados práticos são poucos, enquanto os absurdos continuam.
Obras de mobilidade em Natal atingem reservas naturais e gera desperdícios; veja reportagem!
A Central de Comercialização de Agricultura Familiar, por exemplo, custou R$ 3 milhões e vai ser desativada antes mesmo de ser inaugurada. O advogado Marcos Dionísio, também integrante do comitê, explica: "Esse pequeno milagre que foi a conquista da Central está indo por água abaixo porque, sem nenhum planejamento, o gestor das obras da Copa dá um corte de 16 metros a partir do meio fio da rua, e esse desvio passa pelo meio da Central".

Uma das áreas de mangue de Natal corre riscos, pois está bem no ponto de alargamento de uma das avenidas que passarão por reformas. Segundo Dionísio, outra grande avenida, que ligará o aeroporto ao estádio Arena das Dunas, está sendo reformada, mas só afetará os pequenos comerciantes e moradores.

O Parque das Dunas, santuário da Mata Atlântica, poderá ser invadido em nome de uma avenida mais larga. "Quem vai sofrer é a natureza, porque a avenida pode entrar até 30 metros dentro do parque", continuou.

Outras construções, não necessariamente ligadas à mobilidade urbana, também prejudicam cidadãos. A indústria Coteminas S.A será fechada para se transformar em um empreendimento imobiliário, e mais de 2 mil trabalhadores perderão seus empregos.