[Via Costeira] Hoteleiros querem novo projeto


Tribuna do Norte - 15 de Agosto de 2012
O Pólo Turístico Praia da Costeira traz hoje (15) a Natal, o arquiteto curitibano Orlando Busarello, um dos principais arquiteto-paisagista do Brasil. O intuito é lançar um projeto de requalificação da paisagem da Via Costeira, num conjunto de ações de ordem paisagística, urbanística e de uso dessa faixa litorânea, para apresentar ao poder público. Busarello integrou a equipe do escritório Luís Forte Netto, responsável pelo projeto de concepção da Via Costeira, desenvolvido em 1978.
DivulgaçãoOrlando Busarello está em Natal para iniciar estudo da Via CosteiraOrlando Busarello está em Natal para iniciar estudo da Via Costeira

"Nesse primeiro momento", explicou Busarello, "nosso objetivo é saber dos problemas e das potencialidades, para que possamos definir estratégias para iniciar estudos e desenvolver os projetos necessários". Ontem à tarde, em entrevista  à TRIBUNA DO NORTE, por telefone, Busarello disse que a concepção do projeto  tem algumas prerrogativas, uma delas é saber qual será o público-alvo da Via Costeira, ou seja, o perfil de seus usuários.

Ao trazer o arquiteto a Natal, o Polo Turístico Praia da Costeira pretende forçar uma discussão, no âmbito governamental, sobre a urbanização da Via Costeira e pleitear junto ao Poder Público do Rio Grande do Norte melhorias,  como vias de acesso à praia, construção de um Memorial e coberturas para paradas de ônibus. Hoje, Orlando Busarello mantém o escritório Slomp & Busarello, criado em 1993.

Busarello disse que estará em Natal representando Forte Netto, arquiteto que lidera o projeto da Via Costeira, e com quem trabalha, hoje, em parceria. O arquiteto curitibano concederá entrevista coletiva no Hotel Vila do Mar, às 15h30. Busarello lamentou que, até hoje, o que foi projetado para a Via Costeira não tenha sido executado em sua integralidade. "Natal era para ter hoje", afirmou o arquiteto curitibano, "uma Via Costeira com espaço para ciclovia e caminhadas, com acessos à praia, para que as pessoas utilizassem a faixa litorânea".

Após a concepção do projeto original da Via Costeira, Busarello retornou em Natal em 1990 e 1992. "Agora, estou voltando para ouvir. Ainda não posso afirmar nada categoricamente, mas me parece que, até mesmo, o tratamento paisagístico não é adequado", ponderou o arquiteto, que desembarca em Natal por volta das 14h. Ele explicou que, em 1978, paralelo à concepção do traçado da Via Costeira foi elaborado um plano de desenvolvimento urbano regional.

"Uma das questões centrais", lembrou o arquiteto, "era a ligação da cidade com Ponta Negra, partindo da ponta de Mãe Luiza". Ele ressaltou que nessa vinda a Natal - 34 anos depois da elaboração do projeto da Via Costeira - "será interessante para resgatar a relação tempo e memória; presente e futuro; e, também, para  lançar as ações que os atores responsáveis deverão desencadear".

Já a situação dos processos judiciais relativos à ordenação e revitalização da Praia de Ponta Negra será debatida amanhã, 16, numa audiência pública convocada pelo Ministério Público Estadual. A agenda de Orlando Busarello contempla participação nessa audiência, que acontecerá na sede da Procuradoria Geral de Justiça. Ontem, a promotora de Justiça, Naide Maria Pinheiro, obteve tutela antecipada, garantindo que, nas reformas de reestruturação do calçadão de Ponta Negra, a Prefeitura  implemente as adequações de acessibilidade no local, nos termos da NBR 9050:2004.

O Município tem recursos da ordem de R$ 13,6 milhões, oriundos do Ministério do Turismo, para a instalação de  acessibilidade nos atrativos prioritários das praias de Ponta Negra, Areia Preta e do Forte. O Juízo da 3ª Vara da Fazenda Pública entendeu ser "urgente  que se faça a acessibilidade, concomitantemente com eventual reestruturação da orla, justamente para que os gastos públicos sejam racionalizados".

Segundo a promotora, a partir dessa determinação judicial, o Município de Natal deverá inserir, já nas obras de reestruturação do Calçadão, as reformas necessárias à plena acessibilidade no local, de modo a tornar efetiva a liberdade de ir e vir das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida.

Ambientalistas criam movimento para proteger a Via Costeira

AMBIENTALISTAS CRIAM MOVIMENTO PARA PROTEGER A VIA COSTEIRA E COBRAR QUE ACESSOS À PRAIA SEJAM ERGUIDOS. NA OPINIÃO DELES, NOVOS HOTEIS NEM PENSAR

REPRESENTANTES DE VÁRIAS entidades reuniram-se ontem à noite na sede do Conselho Comunitário de Ponta Negra para organizarem o movimento "A Via Costeira é nossa", uma reação ao interesse de grupos econômicos em construir mais hotéis naquela região. Ambientalistas planejam uma manifestação no antigo Vale das Cascatas, no dia 18 de agosto. Foi o segundo encontro do grupo. No sábado eles se reuniram em Mãe Luiza e deram os primeiros passos para tentar mobilizar a sociedade no intuito de "manter a Via como um espaço público", ou seja, além dos espaços de proteção ambiental, eles cobram a construção dos acessos à praia, projeto há muito tempo discutido e nunca sequer citado por algum governo. 

Estavam no Conselho Comunitário 26 pessoas, de entidades, como a própria Associação de Moradores de Ponta Negra, a Filhos da Mãe (de Mãe Luiza), Conselho Comunitário de Mãe Luíza, 
ONG Baobá, associações de usuários de bicicleta como a Bicicletada e a Ponta Negra Bike, Associação Amigos da Natureza (Aspoan), S.O.S Ponta Negra e uma advogada do Escritório Popular, projeto de extensão da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A principal tese do grupo é que a lei não permite a construção de mais hotéis na Via Costeira e a Advocacia Geral da União (AGU) já estava requerendo os terrenos de volta, já que os empreendedores não usaram eles para os seus projetos. 

Para Marísia Baesse de Oliveira, da Aspoan, a Via Costeira é Área de Proteção Permanente (APP) e desde que ela começou a ser projetada em 1977, foi dado um prazo de 20 anos para que os empreendimentos pudessem ser construídos, inclusive incentivos fiscais foram dados para esse fim. "A Via é uma APP desde 2010, depois de formado um consenso entre o Ibama, o Idema e a Prefeitura de Natal, então ela deve i car somente com os 13 hotéis que já estão lá", falou ela. 

O diretor da ONG Baobá, Haroldo Motta, considera que, caso os hotéis sejam construídos, "irão matar a galinha dos ovos de ouro" do turismo local, ou seja, o cenário paisagístico. Motta também defende o melhor usufruto da Via pelo natalense e não apenas pelo turista. "Natal tem essa capacidade natural de encantar o visitante, mas os gestores públicos devem pensar no apelo anti-stress que o lugar tem para o natalense também", disse ele. Os participantes reforçaram a noção de que "patrimônio paisagístico é patrimônio econômico". 

A maioria deles usa a Via para transitar de carro ou de bicicleta. Questionado se tomava banho de mar naquele trecho, Pedro Baesse, disse que vai raramente, por causa da falta de infraestrutura. "Os acesssos são precários. Há somente duna. Esse é um ponto a ser discutido: precisamos dos acessos construídos", diz ele. 

O "A Via Costeira é nossa" pretende realizar uma manifestação, com panl etagem e, talvez uma apresentação musical, no antigo Vale das Cascatas, no sábado, dia 18 de agosto. "É um pontapé para transformar o Vale das Cascatas em uma concha acústica, já que nossa cultura está abandonada", afirmou a poeta Deth Haak, uma conhecida articuladora do movimento S.O.S. Ponta Negra, que se opôs, em 2007 à construção de prédios no entorno do Morro do Careca.

Os participantes também estão organizando uma atuação mais forte nas redes sociais e já possuem página no Facebook. Além disso, articulam o envolvimento de outras instituições na querela, como o Ministério Público Federal, o Congresso Nacional, além do próprio Ibama. A reunião seguinte acontece na próxima segunda-feira, na sede da Associação de Moradores de Ponta Negra.