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.: Esgoto clandestino: sem solução

Repórter: Carla França
Foto: Rodrigo Sena

Com as ligações clandestinas, a praia de Ponta Negra acaba se prejudicando, apesar do bairro estar todo saneado. As “línguas pretas” na areia são constantes e prejudicam o ponto turístico

De janeiro a setembro de 2009, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Urbanismo (Semurb) notificou mais de 200 imóveis por não estarem interligados à rede coletora da Companhia de Água e Esgoto do Rio Grande do Norte (Caern). Na realidade, esse número pode ser maior, mas o município, responsável pela fiscalização, não consegue chegar a todos os infratores.

“A Semurb realiza um trabalho constante de fiscalização, mas é apenas paliativo. Duzentos imóveis foram notificados, fechamos cerca de 50 ligações clandestinas de esgotos, mas a população volta a fazê-las. O problema só será resolvido quando for executado o plano gestor de drenagem e esgotamento de Natal”, disse o titular da Semurb, Kalazans Bezerra.

Não existe apenas uma área da cidade que sofra com as ligações clandestinas, segundo Kalazans, o problema é generalizado, mas em alguns pontos como Mãe Luiza, a situação é mais complicada. Isso porque, apenas 10% do bairro é saneado e a população não tem nenhuma opção.

“A população do bairro não tem onde colocar seu esgoto. Agora é que está sendo feito o saneamento dos outros 90%. Até lá, a única solução - não que seja a correta - para os moradores de Mãe Luiza é despejar o esgoto no mar”, diz o professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e coordenador do projeto Água Azul – que analisa a qualidade das águas dos rios, mar e lagoas do RN, Ronaldo Diniz.

O resultado disso, é a poluição de uma das mais belas praias do litoral potiguar. Uma ‘língua preta’, formada por esgoto e restos de lixo desce através de galerias do bairro de Mãe Luiza para a Via Costeira, em frente ao final da rua João XXIII. Um verdadeiro crime, que apesar de ser do conhecimento de todos os órgãos ambientais, até agora nada foi feito para reverter a situação.

De acordo com o diretor de obras da Caern, Isaías Costa, o problema de Mãe Luiza será sanado quando a Companhia concluir as obras que estão sendo feitas, há mais de dois anos, no bairro. Apesar de já ter 90% da obra pronta, a rede não pode ser ligada porque depende de outra obra, a Estação de Tratamento do Baldo.

“Quando a Caern colocou a rede geral na rua, explicou a população que não poderia fazer as ligações com as casas porque ela não está pronta. Entretanto, muita gente já estava com suas fossas lotadas e fizeram as ligações clandestinas. Com isso, o esgoto vai direto para a rede coletora. Como ela não está funcionando, ele vai em direção ao mar”, explica o diretor de obras da Caern, Isaías Costa.

Até o momento, a Caern executou em Mãe Luiza 7.156 metros de rede coletora convencional e 12.856 metros da rede condominial – que passa pelo quintal das casas e são interligadas. “A previsão é que em seis meses esse problema esteja resolvido, tempo suficiente para a conclusão da obra em Mãe Luiza e da ETE do Baldo. Em janeiro, começaremos os testes e em março ou abril de 2010, deverá entrar em funcionamento. Ao todo, 18 mil habitantes de Mãe Luiza serão beneficiados com as obras de esgotos”, disse Isaías Costa.

Questionado sobre a participação dos hotéis da Via Costeira na questão das ligações clandestinas, Isaías Costa afirma que eles só recebem o habite-se se tiverem seus efluentes transportados para a rede coletora da Caern.

Ainda segundo ele, a Via Costeira é totalmente saneada, de Areia Preta até Ponta Negra. “Hoje não se fala em esgotamento sanitário sem pensar em coleta, transporte, tratamento e destinação final adequada e compatível com a as condições ambientais. E é nisso que a Caern está trabalhando”, diz Isaías.

Esgoto prejudica a praia de Ponta Negra e banhistas

Apesar de Mãe Luiza ser, atualmente, o único ponto de praia em Natal que tem água servida em abundância, outros locais, eventualmente, são incluídos no estudo de balneabilidade realizado pelo IFRN e Idema. Um desses é a Praia de Ponta Negra, mesmo o bairro sendo totalmente saneado. O problema acontece por causa das inúmeras ligações clandestinas de esgotos e galerias pluviais.

“Esta semana não tivemos problemas com Ponta Negra. Apesar de estarem com muito lixo, as bocas de lobo - por onde deveriam sair apenas água de chuva- estão secas. Mas, nos próximos meses, a tendência é que a situação seja outra, já que com a alta estação aumenta o movimento em hotéis e residências do bairro”, disse Ronaldo.

Segundo ele, há uma falta de consciência das pessoas, que ao invés de fazerem a ligação das suas casas com a rede coletora da Caern, preferem, para gastar menos, fazer as coisas de forma irregular. “A única maneira de resolver o problema é punir exemplarmente os responsáveis, mas isso não ocorre. Como nesse caso o ‘crime’ compensa, eles continuam a fazer”, afirmou Ronaldo.

Lagoa

Os bairros de Nova Descoberta e Morro Branco também sofrem com o problema das ligações clandestinas. A Lagoa do Jacaré, que deveria receber apenas água de chuva, virou um esgoto a céu aberto.

Os moradores das ruas da Saudade e Tarcísio Galvão, por exemplo, convivem diariamente com a fedentina da lagoa. Cansados de esperar alguma atitude do poder público, eles se uniram e entraram com uma ação na justiça. “Desde 1995 nós lutamos na justiça e agora saiu a sentença obrigando o município a pagar R$10 mil por dia pelo descaso”, disse o presidente da Associação em Defesa da Cidadania, Mário Emerenciano.

Segundo o secretário de Meio Ambiente e Urbanismo, Kalazans Pinheiro, a prefeitura não vai fugir das suas responsabilidades e está realizando um projeto de drenagem, saneamento e urbanização para a área. “O projeto vai beneficiar as Lagoas do Jacaré, Preá, São Conrado, Centro Administrativo, Horto e Cidade da Esperança. É isso que vai resolver definitivamente a situação desses bairros. O recurso é da ordem de R$280 milhões e dentro de três estará concluído, já que faz parte das obras necessárias para a Copa de 2014”, diz o secretário.

Obras do Baldo estão com 70%concluídas

A Caern, através da sua assessoria jurídica, explicou que já está cumprindo a sentença e que, por isso, não pagará a multa determinada pelo titular da 4ª Vara da Fazenda Pública, juiz Cícero Martins de Medeiros Filho.

O engenheiro do setor de projetos da Caern, João Batista Marques, disse que faltam apenas 20% das ligações da rede de esgoto de Nova Descoberta e Morro Branco, mas só poderão ser executadas quando a Estação de Tratamento do Baldo estiver concluída. “A Caern está concluindo a implantação dos tubos e construção das estações elevatórias para bombeamento dos esgotos, mas ainda sim temos que esperar pela ETE do Baldo. Enquanto isso não acontecer, as pessoas deverão continuar lançando todos os dejetos em fossas sépticas e não fazendo ligações clandestinas”, explicou Marques.

A Caern, está investindo R$ 11 milhões para beneficiar 37 mil moradores de Morro Branco e Nova Descoberta.

1 comentários:

Roberto disse...

Só mesmo uma pessoa de extrema sensibilidade como Orlando Bonelli para fazer essa belíssima música retratando a igualmente belíssima Ponta Negra. Natal está de parabéns em ter no seu seio um compositor baiano (potiguar de coração), dessa grandeza.
Maria Adélia e Roberto Bonelli

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