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Matéria TN 22/3 :: A morte lenta de um rio

A morte lenta de um rio

Repórter: Itaércio Porpino

Cidade de dunas, Natal já viveu uma situação ambiental privilegiada, com reservas d’água de boa qualidade em abundância. O crescimento desordenado e predatório, no entanto, deixou a capital potiguar numa posição bastante delicada e preocupante. Natal já vive a ameaça da escassez de água, provocada pela contaminação dos aqüíferos subterrâneos e dos reservatórios superficiais. O rio Pitimbu, que alimenta a lagoa do Jiqui e abastece grande parte da população, está morrendo aos poucos.

Edifícios ameaçam a bacia

O rio Pitimbu nasce e logo mais adiante morre, para depois renascer, voltar a morrer e renascer outras tantas vezes. Nessa teimosia, perfaz uma bacia de uns 128 km2, costurando um polígono irregular entre as cidades de Macaíba, Natal e Parnamirim. Até desaguar na lagoa do Jiqui, manancial usado desde 1960 para abastecimento público, topa em uma dúzia de barragens, enfrenta a resistência do matagal fechado, desaparece sob o asfalto, corre por trás de um cemitério, ao lado de um presídio e sob os trilhos do trem.

Nesse ponto, entre Natal e Parnamirim, morre mais uma vez. O cenário deixa triste o agricultor Cícero Sieba Félix, de 73 anos. Nascido e criado a vida inteira ali, ele lamenta ao ver como a água que um dia foi cristalina transformou-se em uma lama podre. “Deus me defenda de entrar aí. É capaz de cair o cabelo todinho da pessoa”, diz Cícero.

Tem gente que teima em tomar banho no local poluído; o Pitimbu teima em viver. Agonizando, mas vive. A pergunta é: até quando? Será por pouco tempo se não tiver um controle sobre a emissão de esgotos no rio e a ocupação de suas margens por construções. A principal ameaça, dizem os ambientalistas, são exatamente as edificações nas dunas às margens do Pitimbu, uma vez que o rio resulta da água da chuva que se acumula lentamente nos morros de areia e é liberada, continuamente, durante o ano inteiro.

A ocupação predatória das margens leva à impermeabilização do solo. Assim, no período chuvoso a água vinda do céu escorre com grande velocidade e cria voçorocas (grandes buracos que, por sua vez, provocam o assoreamento do rio). Já no período de estiagem, a vazão é quase nenhuma, pois a água, que era para ficar retida nas dunas, já se foi. Cortando a selva de concreto que tomou o lugar dos morros, o Pitimbu hoje não passa de uma lâmina d’água. Reza a correnteza devagar e o rio vai morrendo... Também aos poucos.

Pitimbu abastece população

Embora muito debilitado, o Pitimbu ainda dá peixe, serve de lazer e mata a sede de animais. A importância maior dele, no entanto, é para o abastecimento da população de Natal.

O rio nasce na comunidade de Lagoa Seca, em Macaíba, e segue por Natal e Parnamirim cerca de 32 km até desaguar na lagoa do Jiqui, reservatório que garante quase toda a água fornecida às residências das regiões Sul, Leste e Oeste da cidade.

A lagoa é responsável por 30% do abastecimento, mas na verdade acaba tendo um peso muito maior porque sua água é usada para diminuir o alto índice de nitrato dos poços subterrâneos que fornecem os outros 70% da água.

“Se não fosse a lagoa do Jiqui para diluir a água dos poços, não daria para diminuir a concentração de nitrato”, diz o ambientalista Kalazans Bezerra, coordenador do Movimento Pró-Pitimbu.

Kalazans foi um dos primeiros a chamar a atenção para a preservação do Pitimbu pelo fato de se tratar de uma reserva de água imprescindível para o abastecimento da população. Em 2002, uma equipe multidisciplinar, formada por 12 profissionais de várias áreas, percorreu todo o curso do rio. Os resultados da expedição, que durou 12 dias, foram traduzidos em linguagem acessível e, assim, o problema chegou ao conhecimento dos natalenses.

“Antes, ninguém sabia que o Pitimbu abastecia a população e que estava ameaçado. Só quem detinha as informações eram estudiosos e alguns órgãos públicos. Nós levamos o caso à sociedade e se iniciou uma mobilização pela preservação do rio. Essa luta não pode parar, pois a situação não é boa. O Pitimbu está caminhando para a morte e o sistema de tratamento da lagoa do jiqui, da década de 60, está obsoleto”, alerta Kalazans.

A luta pela vida sob a ponte

O peixe cascudo salta para escapar de ser devorado pela traíra - é cada pinote! E o pescador Valdeci Oliveira da Silva, 23 anos, joga a linha disposto a fisgar a traíra, mas não marca bobeira enquanto anda dentro do rio com as canelas mergulhadas em dois palmos d’água. O medo é de aparecer jacaré. Valdeci escutou da boca de umas tantas pessoas que tem jacaré no Pitimbu. Mais de um.

A luta pela sobrevivência é travada sob o asfalto, embaixo da ponte de concreto que divide Macaíba de Parnamirim, na movimentada BR-101. Vidas se escondem e se reproduzem ali graças ao rio Pitimbu. “Dá traíra, muçu, bebeu, bagre, caçote. Eu pego os caçotes pequenos e levo pra casa para criar. Não tem isca melhor. O anzol não bate nem no fundo e o peixe já morde”, diz Valdeci.

Sem trabalho, ele vai quase sempre ao local pescar. À tarde, se escancha na bicicleta vermelha e pedala da comunidade Passagem de Areia, em Parnamirim, até a ponte. Leva duas varas de pescaria, uma velha bruaca a tiracolo e uma mochila abarrotada de utensílios. Lanterna e pilhas são indispensáveis, pois Valdeci só vai embora quando escurece. À noite é melhor para pescar porque diminui o movimento de carros na BR.

Manancial agoniza devido à poluição

Rente à linha do trem, passando pelo bairro Planalto em direção a Parnamirim, chega-se à “ponte velha” sob a qual passa o rio Pitimbu. Algumas décadas atrás, o local atraia muitos natalenses em busca de lazer. Foi num tempo em que a água era limpa e, segundo seu Cícero Félix, dava até para beber.

Hoje, Cícero olha com tristeza para o rio embaixo da linha férrea. “Está quase morto”, diz. Mesmo com a poluição visível, tem quem se arrisque a entrar na água. “Todo dia tem gente tomando banho aí. É a praia dos pobres”, fala José de Arimatéia, 28, morador do bairro Planalto.

Um trecho da estrada de areia que liga o Planalto a Parnamirim é coberta pela água do Pitimbu, e como uma reta é o caminho mais rápido entre dois pontos, dezenas de famílias passam diariamente com suas carroças pela via. É o caso de Cícero Vieira de Souza, 42, que sai dos Guarapes para catar garrafa plástica e outros materiais recicláveis em Parnamirim.

A travessia por cima da “ponte velha” é intensa. Nos instantes em que passam por sobre o rio, indo a Parnamirim e voltando, os moradores das comunidades próximas testemunham, a cada dia, mais um pouco da morte do Pitimbu. É o fim da linha?

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